
Ler é tudo de bom. Ser despertado para o mundo da leitura e da literatura, por pessoas dedicadas e apaixonadas por livros, é melhor ainda. Isso acontece na Oficina de Experimentação Literária, comandada por Deborah e Rubinho, que levam a crianças de 4 a 7 anos os rudimentos da história da Literatura, Poesia, Textos Literários e Jornalísticos.
O projeto, de caráter voluntário, existe há dois anos e já foi realizado nas comunidades da Nova Divinéia e Juscelino Kubitschek (Caçapava), ambas no complexo de favelas do Andaraí, na Grande Tijuca. Chegou também à comunidade da Caçapava, nas dependências do CRAS (Centro de Referência da Assistência Social, órgão do Ministério da Assistência Social e Combate à Fome) Itamar Franco, e a próxima parada será na UPP da comunidade Andaraí, em junho.
Rubinho da Divinéia e Deborah Lins de Barros, embora tenham inicialmente percorrido diferentes caminhos, ele, no Direito, e ela, na História, tiveram suas vidas cruzadas em função da literatura e da preocupação com o social.
Amante da literatura, Deborah se embrenha pelo mundo das artes: escreve poesia, crônica, conto e atualmente dedica-se ao estudo de roteiro cinematográfico. “Acredito que podemos ser vários: agrada-me tudo o que consigo interagir”… “A faculdade de História me deu uma visão política clara, mas depois da fase do ‘sonho’, entrei em uma distopia. A Oficina de Experimentação Literária é também uma obra política, pois acredito que essa seja a minha parte, a minha colaboração para um futuro melhor, de pessoas com capacidade não de julgar, mas de saber lidar com a realidade que lhes foi dada. Essa é a minha causa, pois acredito que só a arte salva”, destaca Deborah.
Deborah escreve o blog http://mocadeitadanagrama.blogspot.com.br/ e Rubinho edita o jornal de bairro Rubinho da Divinéia Jornal.
Quando foi criada e no que consiste a Oficina de Experimentação Literária?
Deborah – A oficina surgiu em 2010, com a ideia de se experimentar a literatura mesmo. Sua forma, sua textura, suas faces. E assim, provocar o interesse nas crianças.
Como e por que surgiu a ideia? Por que literatura?
Deborah – escolhi trabalhar com literatura por ser algo que dá prazer. A ideia surgiu quando eu trabalhava na biblioteca do SESC de Itajaí, Santa Catarina. Uma das minhas funções era manter a biblioteca organizada e frequentada. Criei a oficina para as crianças que participavam de um programa educacional promovido pela instituição. Foi um sucesso.
Qual o critério de escolha dos locais para onde o projeto é levado?
Deborah – Acreditamos que crianças que, por exemplo, estudam em escolas particulares ou que tenham condições de vida mais confortáveis têm, mais facilmente, acesso à literatura e às artes. E queremos, com a Oficina, fomentar o interesse por literatura, não lapidá-lo. Por isso, escolhemos trabalhar com crianças de comunidades.
Atualmente, contamos com o apoio do CRAS da Rua Caçapava, no Grajaú. A oficina consta de cinco encontros, com duas horas de duração cada um. A divulgação é feita na comunidade e a ideia é que os alunos participem voluntariamente. O ideal é que seja feita com, 10 a 15 crianças, no máximo.
Que ideias e sentimentos vocês pretendem passar às crianças e aos jovens?
Rubinho – Queremos despertá-las para o mundo da leitura, das artes, buscando humanizá-las. Temos crianças expostas a realidades duras, que as deixam embrutecidas. A ideia é entronizá-las em um mundo lúdico para que percebam que outro mundo é possível e que também depende delas fazer acontecer.
Qual tem sido a receptividade? Do que eles mais gostam?
Deborah – Inicialmente, há uma curiosidade natural da criança. Isso é interessante, pois percebemos, depois desse primeiro momento, quem está gostando e quem está ali por inércia. Fazemos pequenas adaptações no desenho do projeto para que ele se adeque àquela realidade, e não vice-versa.
Em geral, as crianças gostam mais do primeiro encontro, quando há uma espécie de retrospectiva das formas que a humanidade usa para se expressar com a escrita. Valemos-nos de imagens de arte rupestre, de manuscritos medievais e da imprensa de Gutemberg, além de formas de escrita atuais, porém diferentes da que usamos. E depois de tudo fazemos uma bagunça divertida, criando manchetes para um jornal imaginário, que expomos na confraternização de encerramento da oficina.
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